domingo, 1 de novembro de 2026

22º Domingo Depois de Pentecostes

01 de Novembro de 2026 (CC) / 19 de Outubro (CE)
S. Profeta Joel (séc. VI a.C)
Justo João, o Prodigioso de Kronstadt (1908)
Tom 5

Joel foi o primeiro profeta que deixou anotações de suas pregações. Ele profetizou na Judá durante os reinados de Joás e Amazias, cerca de 800 anos antes de Cristo. Chamava-se a si mesmo de Petuel. Eram tempos de tranquilidade e bonança. Jerusalém, ou Sião, o templo e os serviços religiosos estavam constantemente na boca do profeta. Porém, nas catástrofes sofridas por Judá (uma seca e, sobretudo, um terrível ataque de gafanhotos) o profeta viu o início do juízo de Deus caindo sobre o povo judeu.
 
O principal vício combatido pelo profeta era o cumprimento formal, sem verdadeiros sentimentos, dos rituais religiosos e das leis. Naquele tempo, o piedoso Rei Joás esforçou-se para restabelecer a religião em Judá, alcançando apenas êxito parcial. O profeta previu um crescimento das superstições pagãs e o subsequente castigo Divino, e conclamou o povo hebreu a um sincero arrependimento, dizendo:
"Ainda assim, agora mesmo diz o SENHOR: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto. E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal" (Jl 2, 12-13).
Frequentemente, numa mesma visão profética se juntavam acontecimentos de distintos séculos, próximos, porém, no plano religioso. Assim, por exemplo, o juízo divino sobre o povo judeu se junta, em sua visão, com o juízo universal do fim dos tempos:
"Suscitem-se os gentios, e subam ao vale de Jeosafá; pois ali me assentarei para julgar todos os gentios em redor. Lançai a foice, porque já está madura a seara; vinde, descei, porque o lagar está cheio, e os vasos dos lagares transbordam, porque a sua malícia é grande. Multidões, multidões no vale da decisão; porque o dia do SENHOR está perto, no vale da decisão. O sol e a lua enegrecerão, e as estrelas retirarão o seu resplendor. E o SENHOR bramará de Sião, e de Jerusalém fará ouvir a sua voz; e os céus e a terra tremerão, mas o SENHOR será o refúgio do seu povo, e a fortaleza dos filhos de Israel. E vós sabereis que eu sou o SENHOR vosso Deus, que habito em Sião, o meu santo monte; e Jerusalém será santa; estranhos não passarão mais por ela. E há de ser que, naquele dia, os montes destilarão mosto, e os outeiros manarão leite, e todos os rios de Judá estarão cheios de águas; e sairá uma fonte, da casa do SENHOR, e regará o vale de Sitim. O Egito se fará uma desolação, e Edom se fará um deserto assolado, por causa da violência que fizeram aos filhos de Judá, em cuja terra derramaram sangue inocente. Mas Judá será habitada para sempre, e Jerusalém de geração em geração. E purificarei o sangue dos que eu não tinha purificado; porque o SENHOR habitará em Sião" (Jl 3, 12-18). 
Antes, porém, do juízo final dar-se-á a descida do Espírito Santo e a renovação espiritual do povo de Deus.
"E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito. E mostrarei prodígios no céu, e na terra, sangue e fogo, e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR. E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como disse o SENHOR, e entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar" (Jl 2,28-32).
O Apóstolo São Pedro lembrou esta profecia no dia da descida do Espírito Santo, durante a festividade de Pentecostes. O profeta Joel falava sobre os seguintes temas: a) o ataque dos gafanhotos (1,2-20); b) a aproximação do Dia do Senhor (2,1-11); c) o chamado ao arrependimento (2,12-17); d) a misericórdia divina (2,18-27); e) a renovação espiritual (2,28-32); o juízo sobre todos os povos (3,1-17); e a bênção divina por vir (3,18-21). 
Comemoração de São João de Kronstadt 
Hoje, a Igreja Ortodoxa Russa homenageia o nosso santo e justo Padre João de Kronstadt, o grande homem de oração. As orações do Padre João foram tão eficazes, tão claramente comoventes que nos fazem pensar. Este foi um homem que viveu até o limiar do século XX. Nossos bisavós, até mesmo os avós, poderiam tê-lo conhecido se morassem na Rússia. Esta parte de um folheto sobre São João de Kronstadt escrito pelo Bispo Alexander (Mileant) lança luz sobre a filosofia viva de oração do Padre João e como tal oração pode realizar milagres.
 
“Concentremos a nossa atenção em como o Padre João expressa o seu ensinamento cristão sobre Deus Pai. Quantas vezes Deus Pai é apresentado como distante do mundo! Nos ensinamentos filosóficos religiosos sobre Deus, o Verbo, ou Logos, é explicado em outro sentido, que Deus, o Pai, como o Absoluto, não é igual ao mundo relativo e, portanto, não pode ter contato direto com ele e, conseqüentemente, está em necessidade de um intercessor entre Ele e o mundo, e que tal intercessor é Deus o Verbo, Deus o Filho (Filho de Deus). Tal perspectiva, aliás, foi expressa no sistema filosófico de Vladimir Soloviev. Esta visão penetra muitas vezes também nas nossas ideias religiosas comuns: Deus Pai, vivendo numa Luz inacessível, reservou-se, por esta mesma razão, o direito de estar afastado deste mundo terreno e de nós, pessoas. De maneira semelhante, o pensamento do afastamento de Deus Pai das pessoas é sentido no ensinamento católico romano sobre a expiação (redenção), onde a redenção da humanidade com o Sangue do Filho de Deus é explicada pela necessidade de apaziguar e satisfazer a Deus Pai por Ele ter sido insultado pelo pecado do homem.

Padre João ensina uma ideia totalmente diferente:

"Deus, Pai da Palavra, é também nosso Pai benevolente e amoroso. Ao dizer 'O Pai Nosso', devemos acreditar e lembrar que o Pai que está no céu nunca se esquece e nunca se esquecerá de nós, pois o que o pai terreno esquece ou não cuida de seus filhos? Lembre-se de que nosso Pai Celestial constantemente nos cerca com amor e cuidado, e não é em vão que Ele é chamado de nosso Pai - este não é um nome sem significado e força, mas um nome com grande significado e poder." "Não deveríamos reconhecê-Lo como ainda mais benevolente, porque Ele deu... o maior dom de Sua benevolência, sabedoria e onipotência - com isso se entende liberdade... não se deixar abalar pela ingratidão daqueles que receberam o dom, para que Sua bondade pudesse brilhar mais forte do que o sol diante de todos? E Ele não mostrou por Suas ações Seu amor ilimitado e sabedoria ilimitada, concedendo-nos liberdade, quando, após nossa queda na pecaminosidade e nosso afastamento Dele, e ruína espiritual, Ele enviou ao mundo Seu Filho, o Unigênito, à semelhança do homem perecível, e O deu para sofrer e morrer por nós?"

"Cristão! Lembre-se e tenha constantemente em mente e em seu coração as grandes palavras da Oração do Pai Nosso: 'Pai Nosso, que estás nos Céus.' Lembre-se de quem é nosso Pai. Deus é nosso Pai, nosso Amor: quem somos nós? Somos Seus filhos, e entre nós, irmãos; com que tipo de amor os filhos deveriam viver entre si, tendo um Pai assim? Se vocês fossem filhos de Abraão, você teria feito as obras de Abraão; que tipos de ações devemos fazer?" “Nossa vida é de amor - sim, amor. E onde há amor, há Deus, e onde há Deus, há todo o bem... E assim com alegria alimentar e encantar a todos, agradar a todos e depender de todas as coisas estão sobre o Pai celeste, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação. Traga ao seu próximo em sacrifício aquilo que lhe é caro...” E assim, vemos o Padre João converter os dogmas fundamentais em admoestações morais imediatas; ele mostra que toda verdade da fé contém em si um propósito moral. 
Padre João, em sua teologia sobre o Pai ensina, antes de tudo, sobre o pensamento divino. “Da mente de Deus, do pensamento de Deus, procede todo pensamento do mundo. Em geral, em todo o mundo vemos o reino do pensamento, como em toda a estrutura do mundo visível, assim também, em particular, na terra, em a rotação e a vida do planeta terrestre, na distribuição dos elementos do mundo: ar, água, fogo, enquanto outros fenômenos estão distribuídos em todos os animais, nos pássaros, peixes, cobras, feras, e no homem, em seus sábios e formação proposital, e em suas capacidades, moral, hábitos; nas plantas, em sua adaptação, na nutrição, e assim por diante; em todos os lugares vemos o reino do pensamento, mesmo na pedra e na areia inanimadas. 

Oração Antes de Ler as Escrituras
Faz brilhar em nossos corações a Luz do Teu divino conhecimento, ó Senhor e Amigo do homem; e abre os olhos da nossa inteligência para que possamos compreender a mensagem do Teu Santo Evangelho. Inspira-nos o temor aos Teus Santos mandamentos, a fim de que, vencendo em nós os desejos do corpo, vivamos segundo o espírito, orientando todos os nossos atos segundo a Tua vontade; pois Tu És a Luz das nossas almas e dos nossos corpos, ó Cristo nosso Deus e nós Te glorificamos a Ti e ao Teu Pai Eterno e ao Espírito Santo, Bom e Vivificante, eternamente, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém! 
MATINAS (XI)

João 21:15-25

Fragmento 67 - Naqueles dias, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, tu Me amas mais do que estes? Disse-Lhe Pedro: Senhor, Tu sabes que eu Te amo. Disse-Lhe Jesus: Apascenta os Meus cordeiros. Ainda lhe disse outra vez: Simão, filho de Jonas, tu Me amas? Disse-Lhe Pedro: Senhor, Tu sabes que eu Te amo. Disse-lhe Jesus: apascenta as Minhas ovelhas. Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, tu Me amas? Pedro entristeceu-se porque foi perguntado pela terceira vez: Tu Me amas? E disse-Lhe: Senhor, Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que eu Te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as Minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: Quando eras jovem, te vestias a ti mesmo, e andavas aonde querias; mas, quando envelheceres, estenderás as tuas mãos, e outro te vestirá, e te levará para aonde não queres. E disse isto, significando de que morte Pedro iria glorificar a Deus. E, dito isto, disse-lhe: Segue-Me. E Pedro, voltando-se, vê andando atrás d’Ele o discípulo a quem Jesus amava, e que na ceia, se recostara ao peito de Jesus, e que dissera: Senhor, Senhor, quem há de Te trair? Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, Senhor, e o que será deste? Disse-lhe Jesus: Se Eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa isto? Segue-Me tu. E fez-se ouvir essa palavra entre os irmãos de que aquele discípulo não havia de morrer. Mas Jesus não lhe disse que ele não morreria, mas: Se Eu quero que ele permaneça até que Eu venha, que te importa isto? Este é o discípulo que testifica destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. Há, porém, muito mais coisas que Jesus fez; mas, e se cada uma delas fossem narradas detalhadamente, então, acho que o próprio mundo não acomodaria todos os livros escritos. Amém.

LITURGIA

Tropárion da Ressurreição, Tom 5
Fiéis, cantemos e adoremos o Verbo / Co-eterno ao Pai e ao Espírito Santo, / nascido para nossa salvação, da sempre Virgem Maria, / pois Ele aceitou livremente / sofrer a morte na Cruz / para dar a vida a todos os mortos //, pela Sua gloriosa Ressurreição.

Tropárion de São João de Kronstadt, Tom 4
Com os Apóstolos, teu som se espalhou por toda a terra; / Com os confessores, suportaste sofrimentos por Cristo; / Tu te assemelhavas aos santos hierarcas na tua pregação da Palavra; / E com o venerável resplandeceste na graça de Deus. / Portanto, o Senhor exaltou a profundidade da tua humildade acima dos céus, / e nos deu o teu nome como fonte de milagres maravilhosos. / Portanto, ó taumaturgo, que vives em Cristo para sempre, / Tem piedade, em teu amor, das pessoas em desgraça; / Escuta teus filhos, / que com fé te invocam, // Ó João de Kronstadt, nosso amado pastor.
 
Kondákion da Ressurreição
Tu, Ó meu Salvador, desceste ao Inferno, / e despedaçaste os portões como Todo-Poderoso; / e como Criador, ressuscitaste os mortos / e destruíste, Ó Cristo, o aguilhão da morte; / e libertaste Adão da maldição, Ó Tu que amas a humanidade. / Por isso, nós todos clamamos: // Salva-nos Ó Senhor!

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo....

Tom 4: Ó pai João, homônimo da graça, / que foi escolhido por Deus desde a infância, / que em tua juventude recebeste milagrosamente d'Ele o dom do saber, / e em um sonho foste gloriosamente chamado para ser sacerdote: // Suplica a Cristo Deus, para que todos possamos estar contigo no reino dos céus.

Agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!

Hino à Vigem
Ó Admirável Protetora dos Cristãos e nossa Intercessora ante o Criador, / não desprezes as súplicas de nenhum de nós pecadores, / mas, apressa-te a auxiliar-nos como Mãe Bondosa que és, / pois, te invocamos com fé. / Roga por nós, junto de Deus, // tu que defendes sempre aqueles que te veneram.

Prokímenon, no 5º Tom

R. Tu, ó Senhor, nos guardarás e nos preservarás 
desta geração e para sempre. (Sl. 11:8)

V. Salva-nos, Senhor, pois não há mais santos. (Sl. 11:1)

No 7º Tom: 

O justo se alegrará no Senhor e n'Ele esperará.

Gálatas 6:11-18

Fragmento 215A -
Irmãos, vede com que grandes letras vos escrevi por minha mão. Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo. Porque nem ainda esses mesmos que se circuncidam guardam a lei, mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne. Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura. E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus. Desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja, irmãos, com o vosso espírito! Amém.

1 João 4:11-16

Fragmento 73 - Amados, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o Seu amor é aperfeiçoado em nós. Nisto conhecemos que permanecemos n’Ele, e Ele em nós, porque Ele nos deu do Seu Espírito. E nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou o Filho, o Salvador do mundo. Todo aquele que confessa que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus. E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem em nós. Deus é amor; e todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.

Aleluia, no 5º Tom

Eu cantarei eternamente as Tuas misericórdias, Senhor;
anunciarei a Tua verdade de geração em geração.

Aleluia, aleluia, aleluia!

Pois disseste: "A misericórdia elevar-se-á como um edifício eterno e nos céus a Tua verdade será solidamente estabelecida".

Aleluia, aleluia, aleluia!

No 4º Tom: 

Seu coração está pronto para ter esperança no Senhor.

Aleluia, Aleluia, Aleluia!

Evangelho [Lucas 8:5-15 (§35); Lucas 6:31-36 (§26)]

Lucas 8:5-15 (Leitura do Dia)

Fragmento 35 - O Senhor disse esta parábola: “Um semeador saiu para semear a sua semente e, quando semeou, uma semente caiu no caminho e foi pisoteada, e os pássaros do céu a comeram. Outras caíram sobre uma rocha e, subindo, secaram, porque não tinham umidade. E algumas caíram entre os espinhos, mas os espinhos também subiram com elas e as sufocaram. E outra caiu em boa terra e se levantou e produziu frutos cem vezes maiores”. Enquanto falava, clamava: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. E Seus discípulos perguntaram-Lhe: “O que essa parábola poderia significar?” Mas Ele disse: “A vós é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus, e aos outros por parábolas, para que quando virem, não vejam, e quando ouvirem, não entendam. Isso é o que esta parábola significa: A semente é a palavra de Deus. Aqueles na estrada são aqueles que ouviram; então o diabo vem e tira a palavra de seus corações, para que eles não creiam e não sejam salvos. As que estão na rocha são aqueles que, tendo ouvido,  aceitam a palavra de bom grado, mas não têm raiz; eles creem por um curto período de tempo e, quando são tentados, recuam. E aquelas que caíram em espinhos são aqueles que ouviram, mas nos caminhos da vida eles sucumbem aos seus cuidados e riquezas e os prazeres da vida: e seus frutos não amadurecem. E a que está na boa terra são aqueles que, ouvindo a palavra, a guardam com coração bom e dão fruto com paciência”.

Lucas 6:31-36

Fragmento 26 - O Senhor disse: “Assim como quiserdes que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também. E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso”.

Versículo da Comunhão
Louvai o Senhor desde os céus, 
Louvai-O nas alturas! 
A memória do justo será eterna,
ele não temerá más notícias. 
Aleluia, Aleluia, Aleluia!


HOMILIA


“Ao Homem Lhe Cabe Semear; a Deus, Dar o Crescimento”

Passava o Senhor por algumas sementeiras: o grão de trigo entre as messes; aquele grão de trigo espiritual, que caiu em um lugar determinado e ressuscitou fecundo no mundo inteiro. Ele disse de si mesmo: Se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica infecundo; mas se morre, dá muito fruto.

Passava, portanto, Jesus por algumas sementeiras: aquele que um dia haveria de ser grão de trigo por sua virtude nutritiva, por enquanto é um semeador, conforme se diz nos evangelhos: o semeador saiu a semear. Jesus, é verdade, espalha a semente generosamente, mas a quantia do fruto depende da qualidade do terreno. Porque no terreno pedregoso facilmente a semente seca, e não por impotência da semente, mas por culpa da terra, pois enquanto a semente está cheia de vitalidade, a terra é estéril por falta de profundidade. Quando a terra não mantém a umidade, os raios solares penetrando com mais força ressecam a semente: certamente não por algum defeito na semente, mas por culpa do solo.

Se a semente cai em uma terra cheia de espinhos, a vitalidade da semente acaba sendo sufocada pelos espinhos, que não permitem que a virtualidade interior se desenvolva, devido a um condicionante exterior. Em vez disso, se a semente cai em terra boa nem sempre produz resultado idêntico, mas algumas vezes trinta, outras sessenta, e outras cem por um. A semente é a mesma, os frutos diversos, como diversos são também os resultados espirituais naqueles que são instruídos.

Saiu, pois, o semeador a semear: em parte o fez pessoalmente e em parte através de seus discípulos. Lemos nos Atos dos Apóstolos que, após o apedrejamento de Estêvão, todos – menos os apóstolos – se dispersaram, não que se desagregassem por causa de sua fragilidade; não se separaram por razões de fé, mas simplesmente se dispersaram. Convertidos em trigo por virtude do semeador e, transformados em pão celestial pela doutrina de vida, difundiram por toda parte sua eficácia.

Então, o semeador da doutrina, Jesus, Filho unigênito de Deus, passava por algumas sementeiras. Ele não é apenas semeador de sementes, mas também de ensinamentos densos de admirável doutrina, em conivência com o Pai. Este é o mesmo que passava por algumas sementeiras. Aquelas sementes eram certamente portadoras de grandes milagres.

Vejamos agora o que diz respeito à semente no momento da semeadura, e falemos dos brotos que a terra produz na primavera, não para abordar de forma técnica o tema, mas para adorar ao autor de tais maravilhas. Vão os homens e, conforme o seu leal saber e entender, atrelam os bois ao arado, lavram a terra, afofam as camadas superiores para que as chuvas não escorram, mas empapando profundamente a terra façam germinar um fruto copioso. A semente, lançada a uma terra bem afofada, possui uma dupla vantagem: primeiro, a profundidade e a frieza da terra; segundo, permanece oculta, resguardada da voracidade das aves. O homem certamente faz tudo o que está ao seu alcance; mas não está ao seu alcance o fazer frutificar. Ao homem lhe cabe semear; a Deus, dar o crescimento. Quando a semente começa a brotar e cresce, desprende-se da espiga e o fruto indica se si trata de trigo ou de joio.

Compreendestes o que acabo de dizer; agora devo dar um passo a mais e apontar para realidades mais espirituais. Mediante os apóstolos, Jesus semeou a palavra do Reino dos Céus por toda a terra. O ouvido que escutou a pregação a retém em seu interior; e ela brota na medida em que frequente assiduamente a Igreja. E nos reunimos em um mesmo local, tanto os produtores de trigo como de joio; assim o infiel como o hipócrita, para manifestar com maior realismo o que se prega. Nós, os agricultores da Igreja, vamos metendo pelo semeado o enxadão das palavras, para cultivar o campo de modo que dê fruto. Ainda desconhecemos as condições do terreno: a semelhança das folhas pode com frequência induzir ao erro aos que coordenam. Porém, quando a doutrina se traduz em obras e adquire consistência o fruto das fadigas, então se revela quem é fiel e quem é hipócrita.

Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria (séc. IV)

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