
02 de Agosto de 2026 (CC) / 20 de Julho (CE)
Santo Profeta Elias (Séc. IX a.C); Aarão, Sumo Sacerdote; Abraão da Gália; Leôncio e Sabas de Stromynsk;
Encontro das Santas Relíquias Atanásio de Bretsk;
Presbíteros Alexios, Dimitri, Maria Skotsva e Seus Filhos Yuri e Ilia;
Tom 8
O Santo Profeta Elias (Ilias) foi um dos maiores dos profetas e o primeiro no Antigo Testamento a levar uma vida de virgindade (celibatária). Ele nasceu em Galaadian Thesbia (Tishbe), na tribo de levi, 900 anos antes da Encarnação do Verbo de Deus.
Santo Epifânios, de Chipe, fez o seguinte drelato sobre o nascimento do Profeta Elias:
"Quando Elias nasceu, seu pai Sobach teve uma visão, que homens bonitos o saudavam, o envolviam no fogo e alimentavam a chama do fogo".
O nome Elias (a força do Senhor) dado à criança definiu toda a sua vida. Desde os anos de sua juventude, Elias se dedicou ao Único Deus, estabeleceu-se no deserto e passou toda a sua vida em estrito jejum, meditação Divina e oração.
Chamado para o serviço profético, diante do rei israelita Acabe, o Profeta revelou-se um ardoroso defensor da verdadeira fé e piedade. Durante esse tempo, a nação israelita se afastou da fé de seus pais, abandonaram o Deus Único e adoraram os ídolos pagãos, cuja adoração foi introduzida pelo ímpio rei Jereboam. Uma especial devota da adoração de ídolos foi a esposa do rei Acabe, a pagã Jezabel.
A adoração do ídolo de Baal levou os israelitas à completa decadência moral. Vendo a ruína de sua nação, o Profeta Elias começou a denunciar o rei Acabe por impiedade e a exortá-lo a se arrepender e se voltar para o Deus Verdadeiro. O rei não quis ouvi-lo. O Profeta Elias então declarou-lhe a punição Divina, pela qual não haveria chuva e nem orvalho sobre o solo, e que esta estiagem somente cessaria por meio de sua oração. E, de fato, por meio da oração do profeta, os céus foram fechados e houve seca e fome por toda a terra. A nação sofria com o calor e a fome incessantes.
O Senhor por meio de Sua misericórdia, vendo o sofrimento do povo, estava preparado para perdoar a todos e mandar chuva sobre a terra, mas não queria anular as palavras do Profeta Elias, entristecido e desejoso de converter o coração dos israelitas ao arrependimento e devolvê-los à verdadeira adoração a Deus.
Tendo salvado o Profeta Elias das mãos de Jezabel, o Senhor durante este tempo de tribulação o enviou a um lugar secreto do riacho Horath. O Senhor ordenou que corvos vorazes trouxessem comida ao profeta, levando-o a sentir pena da nação sofredora. Quando o riacho Horath secou, o Senhor enviou o Profeta Elias para Sidonian Sarepta, para uma viúva pobre, que sofreu junto com seus filhos na expectativa de morrer de fome. A pedido do profeta, ela preparou-lhe um pão com a última medida de farinha e o restante do azeite. Depois disso, por meio da oração do Profeta Elias, a farinha e o azeite não se esgotaram na casa da viúva durante todo o período de fome. Pelo poder de sua oração, o profeta fez outro milagre: Ele ressuscitou o filho morto da viúva.
Após o fim de três anos de seca, o Senhor Misericordioso, enviou o profeta ao Rei Acabe para pôr fim ao infortúnio. O Profeta Elias deu ordens para reunir no Monte Carmelo todo o Israel e os sacerdotes pagãos de Baal. Quando a nação se reuniu, o Profeta Elias propôs a construção de dois altares sacrificiais: um - para os sacerdotes pagãos de Baal, e o outro, para ele, que estava a serviço do Deus Verdadeiro. "Aquele sobre o qual descer fogo dos céus, será mostrado como tendo o Deus Verdadeiro", disse o Profeta Elias, - "e todos terão que adorá-Lo, e aquele que não invocá-Lo, será entregue a morte".
Os profetas de Baal foram os primeiros a oferecer sacrifícios: clamaram ao ídolo de manhã e à tarde, mas em vão - os céus ficaram silenciosos. Perto da noite, o santo Profeta Elias construiu seu altar de sacrifício com 12 pedras (o número das tribos de Israel), colocou a oferenda sobre a lenha, deu ordem para cavar uma vala ao redor do altar e ordenou que o sacrifício e a lenha fossem ensopados com água. Quando o fosso se encheu de água, o ardente profeta voltou-se para Deus em oração, e pediu que o Senhor enviasse fogo do céu para ensinar o rebelde e obstinado povo israelita a voltar seus corações para Ele. Por meio da oração do profeta desceu fogo do céu e caiu sobre o sacrifício, a lenha, as pedras e até mesmo a água. O povo prostrou-se, clamando: “Na verdade o Senhor é o Único Deus e não há outro além Dele!”.
Então o Profeta Elias matou todos os sacerdotes pagãos de Baal e começou a orar para que chovesse. Por meio de sua oração, os céus se abriram e caiu uma chuva abundante, regando a terra ressecada.
O rei Acabe reconheceu seu erro e se arrependeu de seus pecados, mas sua esposa Jezabel ameaçou matar o profeta de Deus. O Profeta Elias fugiu para o reino da Judéia e, lamentando por não ter conseguido erradicar a idolatria, pediu a Deus sua morte. Um anjo do Senhor veio ante ele, fortaleceu-o com comida e ordenou-lhe que fizesse uma longa jornada. O Profeta Elias passou quarenta dias e quarenta noites e, tendo chegado ao Monte Horebe, instalou-se em uma caverna. Lá, depois de uma terrível tempestade, um terremoto e uma explosão de chamas, o Senhor apareceu "em um vento tranquilo" [3 Reis 19:12 (1 Reis 19:12 nas Bíblias Ocidentais)], e revelou ao profeta em luto que Ele preservou sete mil servos fiéis que não eram adoradores de Baal. O Senhor ordenou ao Profeta Elias que ungisse Elisei (Eliseu) para o serviço profético.
Por causa de seu zelo ardente pela Glória de Deus, o Profeta Elias foi levado vivo ao Céu em uma carruagem de fogo. O Profeta Elisei (Eliseu) testemunhou a ascensão do Profeta Elias aos céus em uma carruagem de fogo, e recebeu junto com seu manto caído (capa) um dom de espírito profético duas vezes maior do que o do Profeta Elias possuía.
De acordo com a Santa Tradição da Igreja, o Profeta Elias será um precursor da terrível segunda vinda de Cristo na terra, e durante esse tempo, um dos sinais da pregação profética, será o da morte corporal.
A vida do santo Profeta Elias está registrada nos livros do Antigo Testamento (3 Reis; 4 Reis; Sirach / Eclesiastes 48: 1-15; 1 Macabeus 2: 58). No momento da Transfiguração [Preobrazhenie], o Profeta Elias conversou com o Salvador no Monte Thabor (Tabor) (Mt. 17: 3; Mc. 9: 4; Lc. 9: 30).
O dia da escalada ao céu do Profeta Elias, tem sido venerado na Igreja de Cristo ao longo dos séculos. A Igreja Ortodoxa Russa venera o Profeta Elias entre os santos. A primeira igreja, construída em Kiev pelo Príncipe Igor, estava em nome do Profeta Elias. Após o Batismo, a sagrada Princesa Olga, Igual aos Apóstolos (Com. 14 de julho) construiu um templo dedicado ao Santo Profeta Elias em sua região natal, no vilarejo de Vibuta.
A tradição iconográfica retrata o Profeta Elias subindo em uma carruagem com rodas de fogo, que são rodeadas por todos os lados com chamas e atreladas a quatro cavalos alados.
Leituras ComemorativasLucas 4:22-30 MatinasTiago 5:10-20Lucas 4:22-30
Oração Antes de Ler as Escrituras
Faz brilhar em nossos corações a Luz do Teu divino conhecimento, ó Senhor e Amigo do homem; e abre os olhos da nossa inteligência para que possamos compreender a mensagem do Teu Santo Evangelho. Inspira-nos o temor aos Teus Santos mandamentos, a fim de que, vencendo em nós os desejos do corpo, vivamos segundo o espírito, orientando todos os nossos atos segundo a Tua vontade; pois Tu És a Luz das nossas almas e dos nossos corpos, ó Cristo nosso Deus e nós Te glorificamos a Ti e ao Teu Pai Eterno e ao Espírito Santo, Bom e Vivificante, eternamente, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!
MATINAS (9)
João 20:19-31
Fragmento 65A – Naquele primeiro dia da semana, ao entardecer daquele dia, e estando os discípulos reunidos com as portas cerradas por medo dos judeus, chegou Jesus, pôs-Se no meio e disse-lhes: “Paz seja convosco”. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se, pois, os discípulos ao verem o Senhor. Disse-lhes, então, Jesus segunda vez: “Paz seja convosco; assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós”. E havendo dito isso, soprou sobre eles, e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, são-lhes retidos”. Ora, Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Diziam-lhe, pois, os outros discípulos: “Vimos o Senhor”. Ele, porém, lhes respondeu: “Se eu não vir o sinal dos cravos nas mãos, e não meter a mão no seu lado, de maneira nenhuma crerei”. Oito dias depois estavam os discípulos outra vez ali reunidos, e Tomé com eles. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, pôs-Se no meio deles e disse: “Paz seja convosco”. Depois disse a Tomé: “Chega aqui o teu dedo, e vê as Minhas mãos; chega a tua mão, e mete-a no Meu lado; e não mais sejas incrédulo, mas crente”. Respondeu-Lhe Tomé: “Senhor meu, e Deus meu!” Disse-lhe Jesus: “Porque Me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”. Jesus, na verdade, operou na presença de Seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seu Nome.
LITURGIA
Tropárion da Ressurreição, 8º Tom
Tu desceste do alto dos Céus, Ó Deus misericordioso, / e aceitaste estar sepultado durante três dias, / a fim de nos libertares de nossas paixões. // Senhor, nossa via e ressurreição, glória a Ti!
Tropárion de São Mateus, no 3º Tom (Santo Patrono)
Com zelo seguiste a Cristo, o Mestre, / Que em Sua bondade apareceu aos homens na Terra, / E da alfândega te chamou para Apóstolo / e Pregador do Evangelho ao universo, /por isto honramos tua preciosa memória. / Ó divinamente eloquente, Mateus. /Roga ao Deus misericordioso // que nos conceda a remissão das transgressões e a salvação das nossas almas!
Tropárion, Tom 4: “Anjo na carne, fundamento dos profetas, / segundo precursor da vinda do Cristo; / o glorioso Elias, que do alto faz descer a graça sobre Eliseu, / afasta as doenças e purifica os leprosos. // E sobre os que o veneram faz jorrar as curas.”
Kondákion da Ressurreição, Tom 8
Ressuscitado do túmulo Tu despertaste os mortos, / e ergueste Adão e Eva dançou de alegria na Tua ressurreição; / e os confins da terra mantiveram festas triunfais // na Tua ressurreição dentre os mortos, Ó Tu que És muito misericordioso.
Tom 4: Deixando os laços da alfândega para adquirir o jugo da Justiça, / tu te revelaste um sábio comerciante, rico da sabedoria do Alto. / Proclamaste a Palavra da Verdade, /e pela narrativa da hora do Juízo // despertaste as almas indolentes.
Glória ao Pai e ao Filho e ao espírito Santo...
Tom 2: “Profeta de sublime nome, Elias, / que prevês os grandes feitos do nosso Deus / e submetes à tua palavra as nuvens portadoras de chuva, // roga por nós ao único Amigo dos homens.”
Agora e sempre e pelos séculos dos séculos.
Tom 6: Ó Admirável Protetora dos Cristãos e nossa Intercessora ante o Criador / não desprezes as súplicas de nenhum de nós, pecadores. / Mas, apressa-te a auxiliar-nos como Mãe Bondosa que és, / pois, te invocamos com fé. / Roga por nós, junto de Deus; // tu que defendes sempre aqueles que te veneram.
Prokímenon, no 8º Tom
R. Fazei votos e pagai-os ao Senhor vosso Deus. (Sl. 75:11)
V. Conhecido É Deus em Judá, grande É o Seu Nome em Israel (Sl. 75:1)
1 Coríntios 3:9-17
Fragmento 128 - Irmãos, nós somos cooperadores de Deus, vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei eu como sábio construtor, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este Fundamento levanta um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; pois aquele dia a demonstrará, porque será revelada no fogo, e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se permanecer a obra que alguém sobre ele edificou, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá prejuízo; mas o tal será salvo, todavia, como que pelo fogo. Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque sagrado é o santuário de Deus, que sois vós.
Aleluia no 8º Tom:
Aleluia, Aleluia, Aleluia! (3x)
Vinde, alegremo-nos no Senhor, brademos com júbilo a Deus, nosso Salvador.
Cheguemo-nos diante do Seu semblante com ações de graças,
e com salmos a Ele festejemos com júbilo.
Mateus 14:22-34
Fragmento 59 - Naquela ocasião, Jesus obrigou os Seus discípulos a entrar no barco, e passar adiante d’Ele para o outro lado, enquanto Ele despedia as multidões. Tendo-as despedido, subiu ao monte para orar à parte. Ao anoitecer, estava ali sozinho. Entrementes, o barco já estava a muitos estádios da terra, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário. À quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar. Os discípulos, porém, ao vê-Lo andando sobre o mar, assustaram-se e disseram: É um fantasma. E gritaram de medo. Jesus, porém, imediatamente lhes falou, dizendo: Tende ânimo; Sou Eu; não temais. Respondeu-Lhe Pedro: Senhor, se És Tu, manda-me ir ter Contigo sobre as águas. Disse-lhe Ele: Vem. Pedro, descendo do barco, e andando sobre as águas, foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vento, teve medo; e, começando a submergir, clamou: Senhor, salva-me. Imediatamente estendeu Jesus a mão, segurou-o e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? E logo que subiram para o barco, o vento cessou. Então os que estavam no barco adoraram-No, dizendo: Verdadeiramente Tu És Filho de Deus. Ora, terminada a travessia, chegaram à terra em Genezaré.
† † †
HOMILIAS
“Coragem! Sou Eu!”
Se em alguma ocasião chegássemos a tombar no recife das tentações, recordemos que foi Jesus quem nos mandou subir na barca da prova, e que quer que lhe precedamos na margem oposta. Pois é impossível, para quem não passou pela tentação das ondas e do vento contrário, chegar àquela margem. Assim, quando nos víssemos cercados por múltiplas dificuldades, e mediante um esforço moderado tivéssemos de certa forma conseguido esquivar-se delas, imaginemos que nossa barca se encontra em mar aberto, sacudida pelas ondas que desejariam fazer-nos naufragar na fé ou em alguma outra virtude. Porém, quando víssemos que é o espírito do mal que ataca-nos, então temos de concluir que o vento nos é contrário.
Contudo, quando suportando o vento contrário tivessem transcorrido as três vigílias da noite, isto é, das trevas que acompanham a tentação, lutando intrepidamente de acordo com as nossas forças, procurando escapar ao naufrágio da fé – a primeira vigília representa o pai das trevas e do pecado; a segunda seu filho, “o adversário”, em revolta contra tudo o que traz o nome de Deus ou o que é objeto de adoração; a terceira, o espírito inimigo do Espírito Santo –, estejamos seguros que, vindo a quarta vigília, quando a noite vai adiantada e está prestes a amanhecer, o Filho de Deus virá junto a nós, caminhando sobre as ondas para acalmar o nosso mar agitado. E quando víssemos que o Verbo nos aparece, talvez nos assustemos antes de percebermos de que estamos na presença do Salvador, e, crendo ver um fantasma, gritaremos atemorizados, mas ele nos dirá em seguida: Coragem, sou eu, não tenham medo!
E se entre nós se encontrar outro Pedro, mais fortemente comovido pelas palavras de coragem do Senhor, esse Pedro em caminho para uma perfeição que ainda não alcançou, descendo da barca – como fugindo da tentação que o acometia – em um primeiro momento andou querendo aproximar-se de Jesus sobre as águas; porém, sendo a sua fé ainda insuficiente, e agitado pela dúvida, sentirá a força do vento, sentirá medo e começará a afundar. Mas não afundará, porque gritando se dirigirá a Jesus suplicando: Senhor, salva-me! E imediatamente, também a este Pedro que lhe suplica dizendo: Senhor, salva-me, o Verbo lhe estenderá a mão e socorrerá a este homem, agarrando-o no preciso momento em que começava a afundar, e lançando-lhe em face sua pouca fé e o ter duvidado. Contudo, observa que não lhe disse: “Incrédulo”, mas: homem de pouca fé, e que acrescentou: Por que duvidaste?, como alguém que, apesar de ter um pouco de fé, vacila e não se comporta de modo contrário.
Momentos depois, tanto Jesus como Pedro subiram na barca e o vento se acalmou. Os que estavam na barca, percebendo de que perigos foram salvos, o adoraram dizendo: Realmente és o Filho de Deus.
Orígenes (séc. III)
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“Senhor, Salva-Me, Porque Estou Afundando”
O Evangelho que nos foi proclamado e que recolhe o episódio de Cristo, o Senhor, andando sobre as ondas do mar, e do Apóstolo Pedro, que ao caminhar sobre as águas vacilou sob a ação do temor, duvidando se afundava e confiando novamente saiu flutuando, nos convida a ver no mar um símbolo do mundo atual, e no Apóstolo Pedro a figura da única Igreja.
Na realidade, Pedro em pessoa – ele, o primeiro na ordem dos apóstolos e generosíssimo no amor a Cristo – com frequência responde em nome de todos. Quando o Senhor Jesus perguntou quem dizia o povo que ele era, enquanto os demais discípulos lhe informam sobre as distintas opiniões que circulavam entre os homens, ao insistir o Senhor em sua pergunta e dizer: E vós, quem dizeis que eu sou?, Pedro respondeu: Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo. A resposta a deu um em nome de muitos, a unidade em nome da pluralidade.
Contemplando a este membro da Igreja, tratemos de discernir nele o que procede de Deus e o que procede de nós. Deste modo não vacilaremos, mas estaremos fundamentados sobre a pedra, estaremos firmes e estáveis contra os ventos, as chuvas e os rios, isto é, contra as tentações do mundo presente. Observai, pois, nesse Pedro que então era nossa imagem: algumas vezes confia, outras vacila; algumas vezes lhe confessa imortal e outras teme que morra. Por isso, porque a Igreja tem membros seguros, tem também inseguros, e não pode subsistir sem seguros nem sem inseguros. Naquilo que Pedro disse: Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo, representa os que são seguros; no fato de tremer e vacilar, não querendo que Cristo padecesse, temendo a morte e não reconhecendo a Vida, representa aos inseguros da Igreja. Assim, portanto, naquele único apóstolo, ou seja, em Pedro, o primeiro e principal entre os apóstolos, no qual estava prefigurada a Igreja, deviam estar representados os dois tipos de fiéis, ou seja, os seguros e os inseguros, já que sem eles não existe a Igreja.
Este é também o significado do que nos acabou de ser lido: Senhor, se és tu, manda-me ir até ti andando sobre a água. E, diante de uma ordem do Senhor, Pedro verdadeiramente caminhou sobre as águas, consciente de não poder fazê-lo por si mesmo. Pode a fé o que a humana fraqueza era incapaz de fazer. Estes são os seguros da Igreja. Ordene-o o Deus homem e o homem poderá o impossível. Vem – disse ele –, e Pedro desceu e começou a andar sobre as águas: pôde fazê-lo porque o havia ordenado a Pedra. Eis aqui do que Pedro é capaz em nome do Senhor; o que é que pode por si mesmo? Ao sentir a força do vento, ficou com medo, começou a se afundar e gritou: Senhor, salva-me, porque estou afundando! Confiou no Senhor, pôde no Senhor; vacilou como homem, retornou ao Senhor. Em seguida estendeu a ajuda de sua destra, agarrou ao que estava afundando, censurou ao desconfiado: Que pouca fé!
Bom, irmãos, temos que terminar o sermão. Considerai o mundo como se fosse o mar: vento fortíssimo, tempestade violenta. Para cada um de nós, suas paixões são sua tempestade. Amas a Deus: andas sobre o mar, sob os teus pés ruge a agitação do mundo. Amas ao mundo: ele te engolirá. Ele sabe devorar, não suportar os seus adoradores. Porém, quando o sopro da concupiscência agita teu coração, para vencer tua sensualidade invoca sua divindade. E se teu pé vacila, se hesitas, se existe algo que não consegues superar, se começas a te afundar, diz: Senhor, salva-me, porque estou afundando! Porque só te livra da morte da carne aquele que na carne morreu por ti.
Bem-Aventurado Agostinho, Bispo de Hypona (Séc. V)
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“A Insondável Profundidade De Deus”
Deus está em todas as partes, é imenso e está próximo de todos, conforme atesta de si mesmo: Eu sou – diz – um Deus próximo, e não distante. O Deus que buscamos não está longe de nós, já que está dentro de nós, se somos dignos de sua presença. Habita em nós como a alma no corpo, na condição de que sejamos seus membros sãos, de que estejamos mortos ao pecado. Então, habita verdadeiramente em nós aquele que disse: Habitarei e caminharei com eles. Se somos dignos de que ele esteja em nós, então somos realmente vivificados por ele, como seus membros vivos: Pois nele – como afirma o apóstolo – vivemos, nos movemos e existimos.
Quem, pergunto-me, será capaz de penetrar no conhecimento do Altíssimo se consideramos o inefável e incompreensível de seu ser? Quem poderá investigar as profundezas de Deus? Quem poderá gloriar-se de conhecer ao Deus infinito que tudo preenche e tudo envolve, que tudo penetra e tudo supera, que tudo abarca e tudo transcende? A Deus ninguém jamais o viu tal como é. Ninguém, portanto, tenha a presunção de perguntar-se sobre o indecifrável de Deus, o que foi, como foi, quem foi. Estas são coisas inefáveis, inescrutáveis, impenetráveis; limita-te a crer com simplicidade, porém com firmeza, que Deus é e será tal como foi, porque é imutável.
Quem é, portanto, Deus? O Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus. Não questione mais a respeito de Deus; porque os que querem conhecer as profundezas insondáveis devem antes considerar as coisas da natureza. De fato, o conhecimento da Trindade divina se compara, com razão, à profundidade do mar, conforme aquela expressão do Eclesiastes: O que existe é distante e muito obscuro, quem o examinará? Porque, assim como a profundidade do mar é impenetrável aos nossos olhos, assim também a divindade da Trindade escapa a nossa compreensão. E, por isto, insisto, se alguém se esforça em saber o que deve crer, não pense que o compreenderá melhor dissertando do que crendo; ao contrário, ao ser buscado, o conhecimento da divindade se afastará ainda mais que antes daquele que pretenda alcançá-lo.
Busca, portanto, o conhecimento supremo, não com investigações verbais, mas com a perfeição de um bom comportamento; não com palavras, mas com a fé que procede de um coração simples e que não é fruto de uma argumentação baseada em uma sabedoria irreverente. Portanto, se buscas mediante o discurso racional ao que é inefável, ficarás muito longe, mais do que estavas; porém, se o buscas com fé, a sabedoria estará à porta, que é onde tem a sua morada, e ali será contemplada, pelo menos parcialmente. E também podemos realmente alcançá-la um pouco quando cremos naquele que é invisível, sem compreendê-lo; porque Deus há de ser crido tal como é, invisível, mesmo que o coração puro possa, em parte, contemplá-lo.
São Columba, de Iona (séc. VI)
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