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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Domingo do Publicano e do Fariseu

  
01 de Fevereiro de 2026 (CC) 19 de Janeiro (CE)
S. Macário, o Grande, bispo do Egito, eremita († c. 390)
São Marcos, de Éfeso (1457)
Entronização de Sua Santidade Cirilo, Patriarca de Moscou e Toda Rússia
Tom 1


Antes da Grande Quaresma, o Cânon estabelece três semanas preparatórias e quatro domingos, sendo o Domingo do Publicano e do Fariseu o primeiro deles. 
Segundo a Carta de Constantinopla, as leituras ordinárias do Evangelho de Lucas são lidas aos domingos, desde o domingo seguinte à Exaltação da Cruz até a Grande Quaresma. Algumas dessas leituras foram deliberadamente colocadas no final do ciclo para que fossem lidas em antecipação à Grande Quaresma (pois seu conteúdo harmoniza-se com o espírito do período preparatório): são elas as leituras sobre Zaqueu ( Lucas, capítulo 94 ), as parábolas do Publicano e do Fariseu ( capítulo 89 ) e a do Filho Pródigo ( capítulo 79 ). 
Posteriormente, o domingo com a leitura do Evangelho de Zaqueu permaneceu sem um serviço litúrgico especial (atualmente, essa leitura é sempre feita no último domingo antes do domingo do Publicano e do Fariseu), mas as outras duas leituras tornaram-se a base para serviços litúrgicos especiais do período preparatório. O Domingo do Publicano e do Fariseu surgiu por volta dos séculos X e XI, embora durante os primeiros cem anos sua posição como o 4º domingo antes da Quaresma (contando regressivamente) ainda não fosse universal; somente no século XII o Domingo do Publicano e do Fariseu recebeu um lugar fixo – antes do Domingo do Filho Pródigo. 
Atualmente, não se jejua quarta e sexta-feira da Semana do Publicano e do Fariseus.

Comemoração de São Macário 
São Macário nasceu no alto Egito, no ano 300, e passou sua juventude trabalhando como pastor, nos campos. Movido por uma intensa graça, afastou-se do mundo, ainda muito jovem, confinando-se em uma estreita cela onde dividia seu tempo entre oração, práticas penitenciais e a fabricação de esteiras.

Uma mulher o acusou falsamente de ter sido violentada por ele. Por causa disso, Macário foi preso, maltratado e chamado de hipócrita disfarçado de monge. Tudo isso ele sofreu com paciência e ainda enviou a mulher produtos de seu trabalho, e dizia para si mesmo: «Agora, Macário, tens que trabalhar mais, pois tens que sustentar a mais um».Deus, porém, deu a conhecer sua inocência: a mulher que lhe havia caluniado não pode dar à luz a criança até que revelasse o nome do verdadeiro pai. Isto fez com que a raiva que o povo sentia dele se tornasse admiração por causa de sua humildade e paciência.

Para fugir da estima dos homens, Macário, quando já contava com 30 anos, refugiou-se em um vasto e melancólico deserto de Esquita. Assim viveu 60 anos e foi pai espiritual de inúmeras servos de Deus que lhe confiaram a direção espiritual e o governo de suas vidas com as regras que ele traçava. Todos viviam em eremitérios separados. Só um discípulo vivia com ele, encarregado de receber as visitas. Um bispo egípcio ordenou Macário sacerdote para que pudesse celebrar os Divinos Mistérios para seus irmãos eremitas. Mais tarde, quando o número dos eremitas aumentou, foram construídas 4 igrejas que eram atendidas por outros tantos sacerdotes.

Macário Lavava um vida muita austera, alimentando-se uma vez por semana. Certa ocasião, seu discípulo Evágrio, ao vê-lo torturado pela sede, lhe rogou que tomasse um pouco de água. Macário limitou-se a descansar um pouco à sombra e disse: «Nestes 20 anos, jamais comi, bebi ou dormi o suficiente para satisfazer a minha natureza». Seu corpo estava debilitado e fraco, seu rosto pálido. Para contradizer suas inclinações, não recusava beber um pouco de vinho, quando outros lhe pediam. Depois, se abstinha de toda bebida durante dois ou três dias. Diante disso, seus discípulos decidiram impedir que os visitantes lhe oferecessem vinho. Macário falava poucas palavras quando dava conselhos e recomendava o silêncio e a oração contínua para toda e qualquer pessoa. Costumava dizer: 
«Na oração, não faz falta dizer muitas coisas, nem empregar palavras escolhidas, basta repetir sinceramente: «Senhor, dá-me a graça que Tu sabes que necessito». Ou: «Meu Deus, ajuda-me».
Sua mansidão e paciência eram tão extraordinárias que levou muitos sacerdotes pagãos e outras pessoas à conversão. Certa vez, Macário pediu a um jovem, que lhe procurou para um conselho, que fosse a um cemitério e lá insultasse os mortos com gritos. Quando o jovem voltou, Macário perguntou o que tinham respondido os defuntos. O jovem respondeu que os mortos não responderam nada. Macário disse então: 
«Faz o mesmo quando te insultarem e quando gritarem contigo. Só morrendo para o mundo e para ti mesmo, poderás começar a servir a Cristo».
Um ermitão que sofria fortes tentações contra a pureza foi consultar Macário que, depois de examinar o caso, chegou a conclusão de que as tentações eram resultantes da indolência do monge. Aconselhou então que o monge não se alimentasse antes do cair do sol, que se entregasse a contemplação durante o trabalho e que trabalhasse sem cessar. O monge seguiu estes conselhos e se viu livre das tentações.

Deus revelou a Macário que ele não era mais perfeito que duas mulheres casadas que viviam na cidade.  Ele foi visitá-las e averiguar como faziam elas para santificar-se e descobriu que nunca diziam palavras ásperas nem ociosas, que viviam em humildade, paciência e caridade com seus maridos, e que santificavam todas as suas ações com a oração, consagrando para a glória de Deus todas as suas forças corporais e espirituais.

Certa vez, um herege da seita dos hieracitas, que negavam a ressurreição dos mortos, havia espalhado inquietações em vários cristãos. Sózimo. Paládio e Rufino relatam que São Macário ressuscitou um morto para conformar os cristãos em sua fé. Segundo Cassiano, Macário se limitou a que o morto falasse e lhe ordenou que esperasse a ressurreição no sepulcro.

Lúcio, bispo ariano que havia usurpado a Sé de Alexandria, enviou tropas ao deserto para que dispersassem os piedosos monges, alguns dos quais derramaram seu sangue testemunhando sua fé. Os principais monges, Isidoro, Pambo, os dois Macários e outros foram desterrados a uma pequena ilha do Nilo, rodeada de pântanos. Pelo exemplo e pelas pregações dos monges, todos os habitantes da ilha se converteram do paganismo. Lúcio então autorizou que retornassem às suas celas. Sentindo que se aproximava seu fim, Macário fez uma visita aos monges de Nitria e lhes exortou com palavras tão profundas que estes se ajoelharam a seus pés chorando.

Macário foi chamado por Deus aos 90 anos, depois de haver passado 60 no deserto de Esquita. Segundo o testemunho de Cassiano, Macário foi o primeiro anacoreta daquele vasto deserto. Alguns autores afirmam que ele foi discípulo de Santo Antônio, porém é pouco provável que tenha sido dirigido espiritualmente por Santo Antônio, antes de ir ao deserto. Contudo, parece que, mais tarde, Macário teria visitado Santo Antônio algumas vezes, pois vivia a uns 15 dias de distância um do outro.
 
Comemoração de São Marcos, Arcebispo de Éfeso

São Marcos Eugênio, Arcebispo de Éfeso, foi um poderoso defensor da Ortodoxia no Concílio de Florença. Ele não concordaria com uma união com Roma com base 
na conveniência política e sacrifício do compromisso teológico (o Imperador Bizantino buscava a assistência militar do Ocidente contra os muçulmanos que se aproximavam cada vez mais de Constantinopla). São Marcos rebateu os argumentos dos seus oponentes, baseando-se no poço da teologia pura e nos ensinamentos dos santos Padres. Quando os membros da sua própria delegação tentaram pressioná-lo a aceitar a União, ele respondeu: 
“Não pode haver compromisso em questões da Fé Ortodoxa”.

Embora os membros da delegação Ortodoxa tenham assinado os Tomos de União, São Marcos foi o único que se recusou a fazê-lo. Ao retornar de Florença, São Marcos exortou exitosamente os habitantes de Constantinopla a repudiar o desonroso documento de união. Morreu em 1457, aos cinquenta e dois anos, admirado e homenageado por todos. 
Tropárion, Tom 4: Pela tua profissão de fé, ó todo louvado Marcos / A Igreja descobriu que és um apaixonado pela verdade. / Tu defendeste o ensino dos Padres; / e derrubaste a escuridão do orgulho arrogante. // Interceda junto a Cristo Deus para conceder perdão aos que te honram!

Kondákion, Tom 3: Vestido com armadura invencível, ó Bendito, / derribaste o orgulho rebelde; / Tu serviste como instrumento do Consolador, / e resplandeceste como um campeão da Ortodoxia. / Por isto a ti clamamos: // “Rejubila-te, Marcos, orgulho dos Ortodoxos!”
Oração Antes de Ler as Escrituras 
Faz brilhar em nossos corações a Luz do Teu divino conhecimento, ó Senhor e Amigo do homem; e abre os olhos da nossa inteligência para que possamos compreender a mensagem do Teu Santo Evangelho. Inspira-nos o temor aos Teus Santos mandamentos, a fim de que, vencendo em nós os desejos do corpo, vivamos segundo o espírito, orientando todos os nossos atos segundo a Tua vontade; pois Tu És a Luz das nossas almas e dos nossos corpos, ó Cristo nosso Deus e nós Te glorificamos a Ti e ao Teu Pai Eterno e ao Espírito Santo, Bom e Vivificante, eternamente, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!

MATINAS (1)

Mateus 28:16-20

Fragmento 116 - Naquela época, os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte onde Jesus os havia ordenado. Quando O viram, prostraram-se em adoração, mas, duvidaram. Então, Jesus aproximou-Se deles e disse: “Toda a autoridade Me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar todas as coisas que vos ordenei. E eis que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos.” Amém!

LITURGIA

Tropárion da Ressurreição, Tom 1
Apesar da pedra do túmulo ter sido selada pelos judeus, / e o Teu puríssimo Corpo guardado pelos soldados, / Tu ressuscitaste ao terceiro dia, ó Salvador nosso, / dando a vida ao mundo. / Por isso, ó Autor da Vida, / os Poderes Celestes Te aclamaram, dizendo: / “Glória à Tua Ressurreição, ó Cristo! / Glória à Tua Realeza! // Glória à Tua Providência, ó Amigo do homem.

Tropárion de São Mateus, Tom 3
Com zelo seguiste a Cristo, o Mestre, / Que em Sua bondade apareceu aos homens na Terra, / E da alfândega te chamou para Apóstolo / e Pregador do Evangelho ao universo, /por isto honramos tua preciosa memória. / Ó divinamente eloquente, Mateus. /Roga ao Deus misericordioso // que nos conceda a remissão das transgressões e a salvação das nossas almas!

Kondákion da Ressurreição, Tom 1
Como Deus, Tu ressuscitaste gloriosamente do túmulo, / ressuscitando o mundo Contigo; / a natureza humana Te canta como Deus,/ pois a morte foi dissipada./ Adão rejubila, Mestre;/ e Eva, doravante liberta das suas cadeias, proclama na alegria:// Ó Cristo, Tu És Aquele que concede a todos os homens a ressurreição!

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo

Tom 4: Deixando os laços da alfândega para adquirir o jugo da Justiça, / tu te revelaste um sábio comerciante, rico da sabedoria do Alto. / Proclamaste a Palavra da Verdade, /e pela narrativa da hora do Juízo // despertaste as almas indolentes.

Agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.

Kondákion do Triódion, Tom 3
Como o Publicano, em prantos, nos cheguemos ao Senhor, / e nos prostremos, pois,  Ele É o Mestre / que deseja a salvação de todos os homens, / e concede perdão aos arrependidos; / pois, para o nosso bem Se encarnou, // Ele que com o Pai É Deus Eterno.

Prokímenon, Tom 1

R. Seja a Tua misericórdia, Senhor, sobre nós, 
como em Ti esperamos. (Sl. 32:22)

V. Regozijai-vos no Senhor, vós, justos, pois aos retos convém o louvor.

2 Timóteo 3:10-15

Fragmento 296 - Meu filho Timóteo, tu, tens observado a minha doutrina, procedimento, intenção, fé, longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e aflições, quais as que sofri em Antioquia, em Icônio, em Listra; quantas perseguições suportei. E de todas o Senhor me livrou. E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições. Mas os homens maus e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela que há em Cristo Jesus.

Aleluia, Tom 1

Aleluia, aleluia, aleluia! (3x)

É Deus Quem me reveste de fortaleza,
E Quem atrai os povos para Mim.

Ele fortalece a Davi, Seu ungido,
E à sua descendência para sempre.

Lucas 18:10-14

Fragmento 89 - O Senhor falou esta parábola: "Dois homens subiram ao templo para orar: Um era fariseu e o outro publicano. O fariseu levantou-se e orou consigo mesmo: 'Graças Te dou, ó Deus, que não sou como os outros homens, vigaristas, injustos, adúlteros, ou mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo o que possuo'. E o publicano, estando de longe, não levantava nem os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: 'Deus, tenha misericórdia de mim, pecador'. Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo aquele que se exalta será humilhado; e aquele que se humilha será exaltado".

Canto da Comunhão

Louvai ao Senhor nos céus, 
louvai-O nas alturas!
Aleluia, Aleluia, Aleluia!

† † †

Os Portões Do Arrependimento


“Abra para mim, ó Doador da Vida, as portas do arrependimento...” canta a Igreja nas Matinas para o primeiro dos quatro domingos que nos preparam para a Quaresma. Na verdade, este domingo poderia ser pensado como uma porta, através da qual entramos no período sagrado que nos leva para a Páscoa; uma porta que se abre para a atmosfera de arrependimento, para o caminho que prepara a vida nova, que a Quaresma deve trazer para cada um de nós. Mas devemos lembrar que a palavra “penitência” ou “arrependimento” é uma tradução do termo grego "metanóia", e que significa "mudança de espírito". Metanóia significa muito mais estar envolvido [internamente] do que o cumprimento de algum tipo de arrependimento exterior. Uma mudança radical, renovação, conversão, é isto o que nos é pedido.

Este domingo, no calendário litúrgico, é chamado de "Domingo do Fariseu e Publicano". A Igreja, a fim de nos exortar ao verdadeiro arrependimento, coloca diante de nós a cena de dois homens que vão ao templo para orar, e dos quais um é justificado por conta de sua humildade e sua sincera contrição.

Podemos nos atrever a dizer que a parábola do fariseu e publicano (Lc 18: 10-14), que é lida na liturgia, é a mais perigosa de todas as parábolas. Porque estamos tão acostumados a condenar o farisaísmo que aqui parece que estamos a dizer: "Pelo menos, apesar de todo o meu pecado, não sou fariseu. Não sou um hipócrita”. Esquecemo-nos que a oração do fariseu não é totalmente má. O fariseu afirma que jejua, que dá o dízimo, que está livre dos pecados mais grosseiros. E isso tudo é verdade. Além disso, o fariseu não toma o crédito por suas boas ações, ele reconhece que elas vêm de Deus, e dá graças a Deus. No entanto, a oração do fariseu erra de duas maneiras: falta-lhe o arrependimento e humildade, pois não parece que ele tenha consciência... das deficiências - talvez desculpáveis - das quais ele, como todos os homens, é culpado. E, além disso, ele se compara ao publicano com um certo orgulho, um certo desdém. Será que temos o direito de condenar o fariseu, e nos considerarmos mais justos do que ele? Mas, antes de tudo, se nós quebramos os mandamentos que o fariseu observa, será que temos o direito de nos colocar no mesmo nível do publicano justificado, em contraste com o fariseu? Nós não podemos fazer isso, a menos que nossa atitude seja exatamente a mesma que a do publicano. Será que nos atrevemos a dizer que temos a humildade e o arrependimento do publicano? Se nós ostensivamente condenamos o fariseu, sem verdadeiramente assumirmos a humildade do publicano, então nós mesmos é que estaremos caindo no próprio farisaísmo.

Vamos agora olhar mais de perto o publicano. Ele não se atreve a levantar os olhos; ele fere seu peito; implora a Deus que tenha misericórdia dele, pois ele percebe que ele é um pecador. Toda a sua atitude corporal é de humildade. É por isso que o Salvador disse:

“Este homem desceu justificado para sua casa, em vez do outro”.

Notamos que Jesus diz: “em vez do outro”', deixando, de alguma forma, o caso do fariseu aberto ao nosso pensamento. E Jesus acrescenta:

"Todo aquele que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado".

Vamos tentar explorar este episódio mais profundamente. É o publicano justificado simplesmente porque ele humildemente confessa seu pecado diante de Deus? Não é só isso, nesse caso, há algo a mais. O núcleo da oração do publicano é um apelo, cheio de confiança, na bondade e na ternura de Deus. "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" Estas primeiras palavras ecoam as do Salmo 51, que é essencialmente a abertura do salmo de penitência:

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias.” (Sl 51:1)

 O fato de que Jesus escolhe para colocar estas palavras na boca do publicano e, assim, torná-las modelo de nossas orações de arrependimento, lança uma grande luz sobre a alma do Salvador, e sobre o que Ele pretende. O que Jesus pede de um pecador penitente (e, portanto, de cada um de nós), é acima de tudo este abandono, esta confiança absoluta na terna misericórdia e na graça de Deus.

Nas matinas, a Igreja resume a parábola evangélica e formula assim o pensamento central para este domingo:

"Senhor, que reprovaste o fariseu por justificar-se a si mesmo e por tomar-se de orgulho por suas ações, Tu que justificastes o publicano, quando ele se aproximou humildemente de Ti, buscando, com gemidos, o perdão por seus pecados. Pois Tu não te aproximarás dos pensamentos arrogantes, nem manterás longe de Ti um coração contrito. Por isso, nós também ajoelhamos humildemente diante de Ti, Tu que sofreste por nós, conceda-nos o Teu perdão e a Tua grande misericórdia".

A epístola para este domingo é tomada da segunda carta de São Paulo a seu discípulo Timóteo (II Tm 3: 10-15). O apóstolo, resumidamente, lembra a Timóteo de tudo o que ele, Paulo, teve que sofrer: perseguições e aflições de todos os tipos. Ele exorta Timóteo, que desde a infância foi criado acreditando em Cristo e nas Escrituras, a não desanimar, e a perseverar com caridade e paciência. Na véspera da Quaresma, esta epístola nos adverte que provas e dificuldades não vão faltar durante os santos preparativos para a Páscoa. Paulo tanto diz para nós quanto para Timóteo:

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido” (II Tm 3:14).

† † †

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Domingo do Publicano e do Fariseu

  
05 de Fevereiro de 2023 (CC) - 23 de Janeiro (CE)
Novos Mártires da Rússia;
Ss. Mártires Clemente, Bispo de Ankara, 
Agafânguel e Dionisio, o Athonita; 
São Genádios, Monge de Kostroma;
Sexto Concílio Ecumênico
Tom 1


Comemoração dos Novos Mártires da Rússia
Hoje comemoramos os incontáveis milhões de fiéis que sofreram e morreram nas mãos dos ateus soviéticos. Estes incluem o czar-mártir Nicolau II e o resto da família real russa (4 de julho); Patriarca Tikhon (24 de março); Grã-duquesa Elizabeth (5 de julho); milhares de mártires, clérigos e leigos, cujos nomes são conhecidos; mas também milhões e milhões de simples crentes cujos nomes foram perdidos para a história. O número dos Novos Mártires da Rússia excede em muito todos aqueles da "Era dos Mártires", dos primeiros três séculos do cristianismo. Que sua memória seja eterna. 
A data desta comemoração foi primeiramente estabelecida pela Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia, em 1981, então adotada pelo Patriarcado de Moscou em 1992. Cerca de 1050 novos mártires foram glorificados pelo Patriarcado em 2000, e muitos outros devem ser reconhecidos nos próximos anos. 
wwwComemoração de São Clemente
O Hieromártir Clemente nasceu na cidade Galaciana de Ancira no ano 258, filho de um pai pagão e de uma mãe cristã. Na infância Clemente perdeu seu pai, e aos doze anos de idade também sua mãe, que previu para ele a morte de um mártir por crer em Cristo. Uma mulher que o adoptou, chamada Sofia, criou-o com medo de Deus. Durante o tempo de uma terrível fome na Galácia, vários pagãos expulsaram seus próprios filhos, não tendo os meios para alimentá-los, e Sofia reuniu também estes pobres, alimentou-os e vestiu-os, e São Clemente a ajudou nisso. Ele ensinou as crianças e as preparou para o Santo Batismo. Muitos deles morreram como mártires pela fé em Cristo.  
Por sua vida virtuosa, São Clemente foi feito Leitor, e mais tarde Diácono, e aos dezoito anos recebeu a dignidade de Presbítero, e aos vinte anos foi ordenado Bispo de Ancira. Logo depois, a perseguição aos cristãos começou sob Diocleciano (284-305). O bispo Clemente foi preso sob denúncia e também teve que responder por si mesmo. O Governador de Galácia, Dometian, tentou convencer o Santo a adorar os deuses pagãos, mas São Clemente confessou firmemente a sua fé e suportou corajosamente todas as torturas às quais o cruel oficial o sujeitou. Eles o suspenderam em uma árvore, e rasgaram seu corpo de modo que os ossos pudessem ser vistos; e também o golpearam ferozmente com paus e pedras, e o viraram sobre uma roda e queimaram-no com um fogo baixo. O Senhor preservou o seu sofredor e curou o seu corpo lacerado. Em seguida, Domécio enviou o Santo para Roma para o próprio imperador Diocleciano, com um relatório de que o Bispo Clemente tinha sido ferozmente torturado, mas tinha se mostrado inflexível. Diocleciano, vendo o mártir completamente saudável, não acreditou no relatório e sujeitou-o a torturas ainda mais cruéis, e, em seguida, trancou-o na prisão.  
Muitos dos pagãos, vendo a bravura do Santo e a milagrosa cura de suas feridas, creram em Cristo. As pessoas na prisão se reunião a São Clemente em busca de orientação, cura e batismo, de modo que a prisão foi literalmente transformada em uma igreja. Muitas dessas pessoas, quando denunciadas, foram executadas pelo Imperador. Diocleciano, impressionado com a incrível resistência de São Clemente, o enviou para Nicomédia para seu Co-Imperador Maximiano.  
No navio ao longo do caminho, o Santo foi acompanhado por seu discípulo Agatângelo, que tinha escapado ser executado com os outros confessores, e que agora queria sofrer e morrer por Cristo juntamente com o Bispo Clemente. 
O Imperador Maximiano, por sua vez, enviou São Clemente e Agatângelo para o Governador Agripina, que os sujeitou a tais tormentos desumanos, que mesmo entre os espectadores pagãos havia uma sensação de pena para com os mártires, que eles começaram a apedrejar os torturadores. 
Tendo sido libertados, os santos curaram um habitante da cidade com uma imposição de mãos e batizaram e instruíram as pessoas, unindo-se a eles em multidões. Preso novamente por ordem de Maximiano, foram enviados para casa para a cidade de Ancira, onde o Príncipe Ancira Cyrenius os mandou torturar, e então os despachou para a cidade de Amásia para o oficial Domécio, conhecido por sua crueldade especial. 
Santo Agafânguel 
Na Amásia, os mártires foram atirados em cal derretida, passaram um dia inteiro nela e permaneceram ilesos. Esfolaram a pele, espancaram-nos com varetas de ferro, puseram-nos em camas quentes e derramaram enxofre. Tudo isso falhou em prejudicar os santos, e eles foram enviados para Társis para novas torturas. No deserto, ao longo do caminho, São Clemente na oração teve a revelação de que sofreria ainda por mais 28 anos pelo nome de Cristo. E depois, tendo sofrido uma multidão de torturas, os santos foram encerrados na prisão. 
Após a morte de Maximiano, Santo Agafânguel foi decapitado com a espada. Os cristãos de Ancira libertaram São Clemente da prisão e levaram-no para uma igreja das cavernas. Ali, depois de celebrar a Liturgia, o Santo anunciou aos fiéis o fim iminente da perseguição e o seu próprio fim que se aproximava. O santo mártir logo foi morto por soldados da cidade, que invadiram a Igreja. Eles decapitaram o santo enquanto este ofertava a Deus a santa oblação, no ano 312. 
São Genádios 
São Genádios, da cidade de Kostroma, foi batizado com o nome de Gregório. Nasceu na cidade de Mogilev, na Lituânia em uma família russo-lituana muito rica. Desde sua juventude se distinguia por sua devoção. Gostava de ir à Igreja e cumpria rigorosamente os tempos de jejum; por isso seus amigos riam dele. 
Desejando dedicar sua vida exclusivamente a Deus, deixou secretamente a casa de seus pais e, vestido como um pobre foi para Rússia onde visitou Moscou e Novgorod, mas não encontrou um monastério de acordo com suas necessidades espirituais. Foi então para o rio Svir onde se encontrava o venerável Alexandre, o qual lhe recomendou que fosse ao bosque de Vologodsk onde vivia o venerável Cornélio de Comel. Lá, após algum tempo, recebeu o hábito monástico de Cornélio, adquirindo o nome de Genádios. 
Algum tempo depois, os veneráveis Cornélio e Genádios partiram para o lago Surskoe, próximo do rio Kostroma. Ali fundaram um monastério com duas igrejas. Mais tarde, este monastério passou a se chamar Monastério de Genádios. São Genádios trabalhava incansavelmente, fazendo os pães (Prósforas) para a Liturgia, cortando lenha, cavando lagos com a irmandade etc. Para crescer espiritualmente, sempre usava as correntes de asceta. Gostava muito de escrever ícones com os quais adornava as paredes das igrejas de seu monastério. Por sua vida devota, recebeu de Deus o dom da profecia e da cura. 
Estando em Moscou, profetizou que a filha de Boyardo Roman Zajarin, Anastácia Romanov, seria czarina. Tempos depois, Anastácia tornou-se esposa do czar João, o Terrível. O mesmo czar João, o Terrível pediu ao venerado Genádios que fosse padrinho de sua filha. Genádios também curou o Bispo Cipriano de Vologda de uma doença mortal. Faleceu no ano de 1565 e no a no de 1644 foram encontradas suas relíquias que foram trasladadas para a Igreja da Transfiguração de seu monastério. O Venerável Gennádios escreveu «Instruções de um pai espiritual a um monge recém ordenado» e «Testamento espiritual». 
O Sexto Concílio Ecumênico 
O sexto Concílio Ecumênico foi convocado pelo Imperador Constantino Pogonato (668-685) em Constantinopla no ano 681 para tratar da heresia Monotelita. Estavam presentes 171 Santos Padres, que afirmaram a confissão de fé a respeito das duas vontades em Jesus Cristo – a Divina e a humana. 
Dando continuidade ao trabalho deste Concílio um outro Concílio foi realizado no ano de 691, nos palácios imperiais, chamado de Concílio de Trullo. O Concílio também decretou 102 cânones sobre a ordem e a disciplina do clero.
Oração Antes de Ler as Escrituras 
Faz brilhar em nossos corações a Luz do Teu divino conhecimento, ó Senhor e Amigo do homem; e abre os olhos da nossa inteligência para que possamos compreender a mensagem do Teu Santo Evangelho. Inspira-nos o temor aos Teus Santos mandamentos, a fim de que, vencendo em nós os desejos do corpo, vivamos segundo o espírito, orientando todos os nossos atos segundo a Tua vontade; pois Tu És a Luz das nossas almas e dos nossos corpos, ó Cristo nosso Deus e nós Te glorificamos a Ti e ao Teu Pai Eterno e ao Espírito Santo, Bom e Vivificante, eternamente, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!

MATINAS (1)

Fragmento 116 (Mateus 28:16-20) - Naquela época, os onze discípulos foram para a Galileia, para o monte onde Jesus lhes designara. Quando o viram, o adoraram; mas alguns duvidaram. E, aproximando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; os ensinando a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.

LITURGIA

Tropárion da Ressurreição
Apesar da pedra do túmulo ter sido selada pelos judeus, / e o Teu puríssimo Corpo guardado pelos soldados, / Tu ressuscitaste ao terceiro dia, ó Salvador nosso, / dando a vida ao mundo. / Por isso, ó Autor da Vida, / os Poderes Celestes Te aclamaram, dizendo: / “Glória à Tua Ressurreição, ó Cristo! / Glória à Tua Realeza! // Glória à Tua Providência, ó Amigo do homem.

Tropárion de São Mateus, Tom 3
Com zelo seguiste a Cristo, o Mestre, / Que em Sua bondade apareceu aos homens na Terra, / E da alfândega te chamou para Apóstolo / e Pregador do Evangelho ao universo, /por isto honramos tua preciosa memória. / Ó divinamente eloquente, Mateus. /Roga ao Deus misericordioso // que nos conceda a remissão das transgressões e a salvação das nossas almas!

Tropárion dos Novos Mártires da Rússia, Tom 4
Ó vós, santos Hierarcas, Sacerdotes e Nobres membros da realeza, / Monges e Leigos, homens, mulheres e crianças; / vós, incontáveis novos Mártires e Confessores, / flores do prado espiritual da Rússia, / que floresceram maravilhosamente em tempos de duras perseguições / dando bons frutos para Cristo em sua resistência: / Rogai a Ele, como Aquele que vos plantou, / que liberte Seu povo de homens ímpios e maus, / e que a Igreja da Rússia / se fortaleça pelo sangue e sofrimento de seus mártires, // para a salvação de nossas almas.

Kondákion da Ressurreição
Como Deus, Tu ressuscitaste gloriosamente do túmulo, / ressuscitando o mundo Contigo; / a natureza humana Te canta como Deus,/ pois a morte foi dissipada./ Adão rejubila, Mestre;/ e Eva, doravante liberta das suas cadeias, proclama na alegria:// Ó Cristo, Tu És Aquele que concede a todos os homens a ressurreição!

Kondákion de São Mateus, Tom 4
Deixando os laços da alfândega para adquirir o jugo da Justiça, / tu te revelaste um sábio comerciante, rico da sabedoria do Alto. / Proclamaste a Palavra da Verdade, /e pela narrativa da hora do Juízo // despertaste as almas indolentes.

Kondákion do Triódion, Tom 3
Como o Publicano, em prantos, nos cheguemos ao Senhor, / e nos prostremos, pois,  Ele É o Mestre / que deseja a salvação de todos os homens, / e concede perdão aos arrependidos; / pois, para o nosso bem Se encarnou, // Ele que com o Pai É Deus Eterno.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo

Kondákion, Tom 2: Ó vos, novos Padecentes da Rússia, / que com vossa confissão terminastes o curso desta terra, / e que em vossos sofrimentos vos foi dada grande ousadia, / rogai a Cristo que vos fortaleceu: / que nós, sempre que provação nos encontrar, / igualmente recebamos a dádiva da Divina coragem; / pois, a nós que veneramos vossa luta, sois testemunhas / de que nem tribulação, prisão ou morte // podem nos separar do amor de Deus!

Agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.

Hino à Virgem: Ó Admirável Protetora dos Cristãos e nossa Medianeira ante o Criador / não desprezes as súplicaS de nenhum de nós pecadores; / mas, apressa-te a auxiliar-nos como Mãe bondosa que és, / pois, te invocamos com fé. / Roga por nós junto de Deus, // tu que defendes sempre àqueles que te veneram.

Prokímenon

R. Seja a Tua misericórdia, Senhor, sobre nós, 
como em Ti esperamos. (Sl. 32:22)

V. Regozijai-vos no Senhor, vós, justos, pois aos retos convém o louvor.

2 Timóteo 3:10-15

10 Tu, porém, tens observado a minha doutrina, procedimento, intenção, fé, longanimidade, amor, perseverança, 11 as minhas perseguições e aflições, quais as que sofri em Antioquia, em Icônio, em Listra; quantas perseguições suportei! e de todas o Senhor me livrou. 12 E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições. 13 Mas os homens maus e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. 14 Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, 15 e que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela que há em Cristo Jesus. 

Aleluia

Aleluia, aleluia, aleluia! (3x)

É Deus Quem me reveste de fortaleza,
E Quem atrai os povos para Mim.

Ele fortalece a Davi, Seu ungido,
E à sua descendência para sempre.

Lucas 18:10-14

Dois homens subiram ao templo para orar; um fariseu, e o outro publicano. O fariseu, de pé, assim orava consigo mesmo: Ó Deus, graças te dou que não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda com este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou o dízimo de tudo quanto ganho. Mas o publicano, estando em pé de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, o pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que a si mesmo se exaltar será humilhado; mas o que a si mesmo se humilhar será exaltado.

† † †

Os Portões Do Arrependimento


“Abra para mim, ó Doador da Vida, as portas do arrependimento...” canta a Igreja nas Matinas para o primeiro dos quatro domingos que nos preparam para a Quaresma. Na verdade, este domingo poderia ser pensado como uma porta, através da qual entramos no período sagrado que nos leva para a Páscoa; uma porta que se abre para a atmosfera de arrependimento, para o caminho que prepara a vida nova, que a Quaresma deve trazer para cada um de nós. Mas devemos lembrar que a palavra “penitência” ou “arrependimento” é uma tradução do termo grego "metanóia", e que significa "mudança de espírito". Metanóia significa muito mais estar envolvido [internamente] do que o cumprimento de algum tipo de arrependimento exterior. Uma mudança radical, renovação, conversão, é isto o que nos é pedido.

Este domingo, no calendário litúrgico, é chamado de "Domingo do Fariseu e Publicano". A Igreja, a fim de nos exortar ao verdadeiro arrependimento, coloca diante de nós a cena de dois homens que vão ao templo para orar, e dos quais um é justificado por conta de sua humildade e sua sincera contrição.

Podemos nos atrever a dizer que a parábola do fariseu e publicano (Lc 18: 10-14), que é lida na liturgia, é a mais perigosa de todas as parábolas. Porque estamos tão acostumados a condenar o farisaísmo que aqui parece que estamos a dizer: "Pelo menos, apesar de todo o meu pecado, não sou fariseu. Não sou um hipócrita”. Esquecemo-nos que a oração do fariseu não é totalmente má. O fariseu afirma que jejua, que dá o dízimo, que está livre dos pecados mais grosseiros. E isso tudo é verdade. Além disso, o fariseu não toma o crédito por suas boas ações, ele reconhece que elas vêm de Deus, e dá graças a Deus. No entanto, a oração do fariseu erra de duas maneiras: falta-lhe o arrependimento e humildade, pois não parece que ele tenha consciência... das deficiências - talvez desculpáveis - das quais ele, como todos os homens, é culpado. E, além disso, ele se compara ao publicano com um certo orgulho, um certo desdém. Será que temos o direito de condenar o fariseu, e nos considerarmos mais justos do que ele? Mas, antes de tudo, se nós quebramos os mandamentos que o fariseu observa, será que temos o direito de nos colocar no mesmo nível do publicano justificado, em contraste com o fariseu? Nós não podemos fazer isso, a menos que nossa atitude seja exatamente a mesma que a do publicano. Será que nos atrevemos a dizer que temos a humildade e o arrependimento do publicano? Se nós ostensivamente condenamos o fariseu, sem verdadeiramente assumirmos a humildade do publicano, então nós mesmos é que estaremos caindo no próprio farisaísmo.

Vamos agora olhar mais de perto o publicano. Ele não se atreve a levantar os olhos; ele fere seu peito; implora a Deus que tenha misericórdia dele, pois ele percebe que ele é um pecador. Toda a sua atitude corporal é de humildade. É por isso que o Salvador disse:

“Este homem desceu justificado para sua casa, em vez do outro”.

Notamos que Jesus diz: “em vez do outro”', deixando, de alguma forma, o caso do fariseu aberto ao nosso pensamento. E Jesus acrescenta:

"Todo aquele que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado".

Vamos tentar explorar este episódio mais profundamente. É o publicano justificado simplesmente porque ele humildemente confessa seu pecado diante de Deus? Não é só isso, nesse caso, há algo a mais. O núcleo da oração do publicano é um apelo, cheio de confiança, na bondade e na ternura de Deus. "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" Estas primeiras palavras ecoam as do Salmo 51, que é essencialmente a abertura do salmo de penitência:

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias.” (Sl 51:1)

 O fato de que Jesus escolhe para colocar estas palavras na boca do publicano e, assim, torná-las modelo de nossas orações de arrependimento, lança uma grande luz sobre a alma do Salvador, e sobre o que Ele pretende. O que Jesus pede de um pecador penitente (e, portanto, de cada um de nós), é acima de tudo este abandono, esta confiança absoluta na terna misericórdia e na graça de Deus.

Nas matinas, a Igreja resume a parábola evangélica e formula assim o pensamento central para este domingo:

"Senhor, que reprovaste o fariseu por justificar-se a si mesmo e por tomar-se de orgulho por suas ações, Tu que justificastes o publicano, quando ele se aproximou humildemente de Ti, buscando, com gemidos, o perdão por seus pecados. Pois Tu não te aproximarás dos pensamentos arrogantes, nem manterás longe de Ti um coração contrito. Por isso, nós também ajoelhamos humildemente diante de Ti, Tu que sofreste por nós, conceda-nos o Teu perdão e a Tua grande misericórdia".

A epístola para este domingo é tomada da segunda carta de São Paulo a seu discípulo Timóteo (II Tm 3: 10-15). O apóstolo, resumidamente, lembra a Timóteo de tudo o que ele, Paulo, teve que sofrer: perseguições e aflições de todos os tipos. Ele exorta Timóteo, que desde a infância foi criado acreditando em Cristo e nas Escrituras, a não desanimar, e a perseverar com caridade e paciência. Na véspera da Quaresma, esta epístola nos adverte que provas e dificuldades não vão faltar durante os santos preparativos para a Páscoa. Paulo tanto diz para nós quanto para Timóteo:

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido” (II Tm 3:14).

† † †

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Domingo do Publicano e do Fariseu

PÓS-FESTA DO ENCONTRO
38º Domingo Depois de Pentecostes
17 de Fevereiro de 2019 (CC) - 04 de Fevereiro (CE)
Santo Isidoro de Pelusium, monge (ca. 436-440). São Jorge, príncipe de Vladimir (1238). São Cirilo, fundador do Lago Novo Mosteiro (Novgorod) (1532); Mártires Jadorus e Isidoro, que sofreram sob Decius (3º c.). Hieromartyr Abramius, bispo de Arbela na Assíria (ca. 344-347). São Nicolau, o Confessor, abade de Studion (868). Veneráveis Abraão e Coprius, fundadores do Pechenga Mosteiro (Vologda) (15º c.); Novo Hieromartyr Metódio (Krasnoperov), bispo de Petropavlovsk (1921). Novo Hieromartyrs Teodósio (Bobkov), hieromonge do Chudov Mosteiro (de Moscou), Nicholas Kandaurov, arcipreste (Moscou), Boris Nazarov, arcipreste, de Protasievo (Verey), Alexander Pokrovsky, arcipreste, de Mineyevo (Moscou), Alexander Sokolov, arcipreste, de Paveltsovo (Moscou), Pedro Sokolov, arcipreste, da Klin (Moscou), João Tikhomirov, arcipreste, de Petrovskoye (Moscou), e Nicholas Pospelov, o sacerdote, de Bylovo (Podolsk) (1938). Novo Mártir Raphaela, schemanun, de Moscou (1938); Hieromartyr Phileas, bispo de Thmuis, e Mártir Philoromus o Magistrado (ca. 303). São João de Irenopolis (ca. 325). São Evágrio, a companheira de ascética de São Shio de Mgvime, Geórgia (6º c.); Hieromartyr Aldate de Gloucester (6º c.). Novo Mártir José de Alepo, na Síria (1686).
Modo 5



O Monge Isidoro Pelusiotes viveu durante os séculos IV-V. Ele era natural de Alexandria e foi criado entre cristãos piedosos. Ele era parente de Teófilo, Arcebispo de Alexandria, e de seu sucessor, São Cirilo.  
Ainda jovem, deixou o mundo e retirou-se para regiões interioranas do Egito, para o Monte Pelusiotes, que se tornou o local de seus esforços monásticos. A sabedoria espiritual e o ascetismo estrito do monge Isidoro, em combinação com sua ampla erudição e conhecimento inato da alma humana, permitiram-lhe em pouco tempo conquistar o respeito e o amor de seus companheiros monges. Eles o escolheram como sendo o chefe deles e o elevaram à dignidade do presbítero. Seguindo o exemplo de São João Crisóstomo, ao qual ele conseguira ver e ouvir durante o tempo de uma viagem a Constantinopla, o monge Isidoro dedicou-se, principalmente, à pregação cristã - aquela "sabedoria prática" que, em suas próprias palavras, é, ao mesmo tempo, tanto a "a fundação do edifício e do próprio edifício", a qual tem na lógica "o seu embelezamento" e na contemplação - "a sua coroa".  
Santo Isidoro também era um professor, e alguém que estava sempre disposto a aconselhar qualquer pessoa que o procurasse buscando encorajamento espiritual, não importando se quem o buscasse fosse um homem simples, um dignitário, um bispo, o Patriarca de Alexandria ou mesmo o próprio Imperador. Ele, também, deixou cerca de 10.000 escritos, dos quais 2.090 sobreviveram, e grande parte desses escritos são de grande profundidade teológica e contém moralmente. interpretações edificantes da Sagrada Escritura. É aqui que o Monge Isidoro se destaca como o melhor discípulo de São João Crisóstomo. O amor e devoção do Monge Isidoro por São João Crisóstomo resultou em uma eficaz intervenção sua em defesa de São João durante o tempo em que foi perseguido pela imperatriz Eudoxia e pelo Arcebispo Teófilo. Após a morte de São João, o monge Isidoro persuadiu o sucessor de Teófilo, São Cirilo, a inscrever o nome de São João Crisóstomo nos dípticos da Igreja como Confessor. E através da iniciativa do Monge Isidoro convocou-se o Terceiro Concílio Ecumênico em Éfeso (431), no qual foram condenados os falsos ensinamentos de Nestório a respeito da Pessoa de Jesus Cristo. 
Santo Isidoro faleceu bastante idoso, por volta do ano 436. O Historiador da Igreja, Evágrios (Séc. VI) escreve sobre o monge Isidoro, dizendo, que "sua vida parecia a todos a vida de um anjo sobre a terra". Outro historiador, Nicholas Kallistos (século IX), assim elogia o monge Isidoro:  
"Ele era um pilar vital e inspirado das regras monásticas e das divinas percepções, e das tais, revelou-se modelo excelso e exemplo de altíssimo fervor e ensinamento espiritual".

Comemoração do Santo Nobre Príncipe Jorge (Georgii, diminutivo Yurii)

O Santo Nobre Príncipe Jorge (Georgii, diminutivo Yurii) era filho do Grande Príncipe Vsevolod, apelidado de "Grande Abrigo" ("Большое Гнездо"). Ele nasceu no ano de 1189, e assumiu o trono de Vladimir em 1212. George destacou-se por seu valor militar e sua piedade.  
No ano de 1237, a horda tártara (mongol) de Batu desceu sobre a terra russa. São Jorge foi obrigado a deixar a capital, deixando-a ao encargo de seus filhos, e partiu para o norte, para se unir aos outros príncipes. No dia 4 de março de 1238 ocorreu a Batalha no Rio Sita, na qual os tártaros destruíram a companhia, não muito grande, mas valente, do grande principado. O próprio santo tombou nessa luta. O bispo Kirill enterrou seu corpo na catedral de Rostov; dois anos depois, foi com grande solenidade transferida para a catedral de Vladimir Uspenie (Dormição). E em 1645 ocorreu a glorificação da Igreja do santo. 
Comemoração do Santo Mártir Abramius 
O Hieromartyr Abramius, Bispo de Arbela, padeceu durante uma perseguição contra os Cristãos na Pérsia, sob o imperador Sapor II. Quando quiseram obrigar o Santo a renunciar a Cristo e a adorar o sol, ele respondeu: 
"Que grande tolice, abandonar o Criador para adorar as criaturas. Não é o sol apenas uma criação do meu Deus?" 
O Hieromartyr Abramius, Bispo de Arbela, padeceu durante uma perseguição contra os Cristãos na Pérsia, sob o imperador Sapor II. Quando quiseram obrigar o Santo a renunciar a Cristo e a adorar o sol, ele respondeu:  
"Que grande tolice, abandonar o Criador para adorar as criaturas. Não é o sol apenas uma criação do meu Deus?" 
Ouvindo isto, eles o espancaram ferozmente e o torturaram. Santo Abramius orou durante a tortura, ecoando as palavras do Salvador:  
"Senhor, não lhes impute este pecado, eles não sabem o que fazem!" 
O hieromartir foi decapitado pela espada, na aldeia de Feldman.

Oração Antes de Ler as Escrituras
Faz brilhar em nossos corações a Luz do Teu divino conhecimento, ó Senhor e Amigo do homem; e abre os olhos da nossa inteligência para que possamos compreender a mensagem do Teu Santo Evangelho. Inspira-nos o temor aos Teus Santos mandamentos, a fim de que, vencendo em nós os desejos do corpo, vivamos segundo o espírito, orientando todos os nossos atos segundo a Tua vontade; pois Tu És a Luz das nossas almas e dos nossos corpos, ó Cristo nosso Deus e nós Te glorificamos a Ti e ao Teu Pai Eterno e ao Espírito Santo, Bom e Vivificante, eternamente, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!

MATINAS (V)


Lucas 24:12-35

12 Mas Pedro, levantando-se, correu ao sepulcro; e, abaixando-se, viu somente os panos de linho; e retirou-se, admirando consigo o que havia acontecido. 13 Nesse mesmo dia, iam dois deles para uma aldeia chamada Emaús, que distava de Jerusalém sessenta estádios; 14 e iam comentando entre si tudo aquilo que havia sucedido. 15 Enquanto assim comentavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou, e ia com eles; 16 mas os olhos deles estavam como que fechados, de sorte que não o reconheceram. 17 Então ele lhes perguntou: Que palavras são essas que, caminhando, trocais entre vós? Eles então pararam tristes. 18 E um deles, chamado Cleopas, respondeu-lhe: És tu o único peregrino em Jerusalém que não soube das coisas que nela têm sucedido nestes dias? 19 Ao que ele lhes perguntou: Quais? Disseram-lhe: As que dizem respeito a Jesus, o nazareno, que foi profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo. 20 e como os principais sacerdotes e as nossas autoridades e entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram. 21 Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de remir Israel; e, além de tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram. 22 verdade é, também, que algumas mulheres do nosso meio nos encheram de espanto; pois foram de madrugada ao sepulcro 23 e, não achando o corpo dele voltaram, declarando que tinham tido uma visão de anjos que diziam estar ele vivo. 24 Além disso, alguns dos que estavam conosco foram ao sepulcro, e acharam ser assim como as mulheres haviam dito; a ele, porém, não o viram. 25 Então ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crerdes tudo o que os profetas disseram! 26 Porventura não importa que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na sua glória? 27 E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras. 28 Quando se aproximaram da aldeia para onde iam, ele fez como quem ia para mais longe. 29 Eles, porém, o constrangeram, dizendo: Fica conosco; porque é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles. 30 Estando com eles à mesa, tomou o pão e o abençoou; e, partindo-o, lho dava. 31 Abriram-se-lhes então os olhos, e o reconheceram; nisto ele desapareceu de diante deles. 32 E disseram um para o outro: Porventura não se nos abrasava o coração, quando pelo caminho nos falava, e quando nos abria as Escrituras? 33 E na mesma hora levantaram-se e voltaram para Jerusalém, e encontraram reunidos os onze e os que estavam com eles, 34 os quais diziam: Realmente o Senhor ressurgiu, e apareceu a Simão. 35 Então os dois contaram o que acontecera no caminho, e como se lhes fizera conhecer no partir do pão. 

LITURGIA

Tropárion da Ressurreição

Fiéis, cantemos e adoremos o Verbo / Co-eterno ao Pai e ao Espírito Santo, / nascido para nossa salvação, da sempre Virgem Maria, / pois Ele aceitou livremente / sofrer a morte na Cruz / para dar a vida a todos os mortos //, pela Sua gloriosa Ressurreição.

Kondákion da Ressurreição
Tu, ó meu Salvador, desceste ao Inferno, / e partiste em pedaços os portões, como Todo-Poderoso, / e como Сriador, ressuscitaste os mortos, / e destruíste, ó Cristo, o aguilhão da morte, / e libertou Adão da maldição, ó Tu Que amas a humanidade. / Por isso, nós todos clamamos: // Salva- nos, ó Senhor.

Theotókion
Rejubila-te, ó Intransponível Porta do Senhor! / Rejubila-te, ó Muralha e Proteção dos que a ti recorrem! / Rejubila-te, ó Refúgio Inabalável! / Rejubila-te, ó Virgem Mãe de teu Deus e Criador! / Não cesses de orar por aqueles que te louvam e adoram o teu Filho.

Tropárion da Festa
Rejubila-te, Ó Virgem Mãe de Deus, cheia de graça, / pois, de ti resplandeceu o Sol da Justiça, Cristo nosso Deus, / iluminando aos que estão em a escuridão. / Rejubila-te, também, tu, ó Justo Ancião, / que recebeste em teus braços o Redentor de nossas almas, // Que concede-nos a Ressurreição.

Kondákion da Festa
Ó Tu, Que pelo Teu nascimento santificaste o ventre da Virgem, / e abençoaste as mãos de Simeão, quando foi ao Teu Encontro, / agora, vem e salva-nos, ó Cristo Deus. / Em meio a guerra conceda paz à Tua Igreja, / e fortaleça aos Governantes que amas, // ó Tu Que amas a humanidade.

Prokímenon
Tu nos guardas, Senhor, / E nos livras da vingança eterna. (Sl. 11:8)
Salva-nos, Senhor, pois não há mais santos. (Sl. 11:1)

2 Timóteo 3:10-15

10 Tu, porém, tens observado a minha doutrina, procedimento, intenção, fé, longanimidade, amor, perseverança, 11 as minhas perseguições e aflições, quais as que sofri em Antioquia, em Icônio, em Listra; quantas perseguições suportei! e de todas o Senhor me livrou. 12 E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições. 13 Mas os homens maus e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. 14 Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, 15 e que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela que há em Cristo Jesus. 

Aleluia

Aleluia, aleluia, aleluia!
Eu cantarei eternamente as Tuas misericórdias, Senhor;
anunciarei a Tua verdade de geração em geração.

Aleluia, aleluia, aleluia!
Pois disseste: «A misericórdia elevar-se-á como um edifício eterno / e nos céus a Tua verdade será solidamente estabelecida».

Aleluia, aleluia, aleluia!

Lucas 18:10-14

10 Dois homens subiram ao templo para orar; um fariseu, e o outro publicano. 11 O fariseu, de pé, assim orava consigo mesmo: Ó Deus, graças te dou que não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda com este publicano. 12 Jejuo duas vezes na semana, e dou o dízimo de tudo quanto ganho. 13 Mas o publicano, estando em pé de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, o pecador! 14 Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que a si mesmo se exaltar será humilhado; mas o que a si mesmo se humilhar será exaltado.

 † † †

HOMILIA

“Dois homens subiram ao templo para orar; um fariseu, e o outro publicano”, disse o nosso Senhor Jesus Cristo. Na realidade estes dois homens representam a todos nós. Eles são a reinvenção de Caim e Abel que se apresentam perante Deus para ofertar. A oferta de um foi rejeitada e a do outro aceita. Estes dois irmãos se apresentaram ante a Face do Pai, trazendo algo em comum e também uma realidade distinta. O que tinham eles em comum? A filiação de Adão, a mesma genética, e portanto herdaram uma natureza morta, sujeita a paixões e inimizades para com Deus. O que os distinguia? A disposição de alma em alimentar esta natureza herdada e o outro na de buscar curá-la.

Quem são o Fariseu e o Publicano? O primeiro representa a principal doença que mata a semente da Fé outrora semeada no coração; o segundo, o antídoto para ela.

O fariseu, na fala de Cristo, é aquele em quem está a dimensão da hipocrisia. “Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia” (Lc 12:1). A palavra grega “hipokrisis (hypo=máscara, krisis=resposta, discernimento”) aponta para o teatro de máscaras. Hipócritas (“hipokrite”) eram os atores que atuavam mascarados, portanto, revelando faces que não eram os seus verdadeiros rostos. Assim, conforme a etimologia da palavra, hipócrita é quem esconde o que pensa ou que é, por trás de um rosto que não é o seu.

A hipocrisia é uma atitude herdada dos nossos primeiros pais, no Éden, quando pecaram. Eles, para que suas nudezes não fossem descobertas, se esconderam por entre as árvores do jardim (Gn 3:8). Em seus desesperos e loucura não consideravam que de Deus não podiam se esconder. Na hipocrisia o espirito maligno obscurece o nosso entendimento, percepção e bom senso. Desta realidade, São Paulo nos fala na leitura da Epístola de hoje, dizendo, que “os homens maus e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (2Tm 3:13). Em geral, a hipocrisia é um recurso da alma passional para evitar uma perda ou assegurar um ganho, e no engano das paixões, se esquece de ponderar o que nos adverte o Senhor: “Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” (João 12:25). O maior perigo da hipocrisia é que ela é contagiosa. Jesus a chamou de “fermento dos fariseus”. Em sua reprovação a esses farsantes, Ele diz: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23:15).

Cultivar a alma do Publicano é o grande antídoto para a hipocrisia e o caminho mais seguro para ser agradável a Deus: “Sacrifício a Deus é o espírito quebrantado; um coração compungido e humilhado Deus não o desprezará” (Sl. 50:17). O espírito humilde só é alcançado por quem cultiva o amor pela verdade (Cristo), porque a verdade liberta (João 8:32). A libertação que alcançamos na verdade, é que Ela nos revela a Deus e consequentemente a nós mesmos, “pois em ti está o manancial da vida; na tua luz veremos a luz” (Sl 35:9). Quem conhece a Deus busca a verdade e se aproxima da luz, sem subterfúgios. Nossos primeiros pais revelaram ignorância de Deus, pois, pondo o foco em si mesmos, conceberam a artimanha de se esconderem. Eles jamais poderiam imaginar que o Juíz É misericordioso e que julga segundo a verdade; e é por isto mesmo que levaria em consideração suas fraquezas e impotências frente as astúcias da serpente. A disciplina que Deus imporia sobre eles, seria para lhes ensinar a obediência, eficaz ferramenta contra as ciladas do diabo:

“A lei do Senhor é perfeita, convertendo almas; o testemunho do Senhor é fiel, instruindo até aos bebês. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é brilhante e ilumina os olhos” (Sl 18:7,8).

Em seus fracassos, Ele, o nosso Deus, os queria reerguer, pois fez para eles vestimentas e lhes prometeu, da carne mortal da mulher, suscitar um Descendente vivificante. Na Grande Festa da Teofania, a Igreja celebra tal revestimento cantando alegremente:

Vós todos que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo: Aleluia!

E na Páscoa, entoa exultante:

Cristo ressuscitou dos mortos, pisoteando a morte com a morte; e aos que estavam no túmulo Cristo deu a vida!
No Sacramento da Confissão, ficamos desnudos perante o Sacerdote, expomos nossas vergonhas Àquele que nos acolhe, porque seu amor é infinito (Sl 105). E por mãos mortais revestidas pela Graça (as mãos do Sacerdote), que ao nos cobrirem com a Estola, comunica-nos o perdão e o Dom Vivificante, concedendo-nos a bênção do recomeço. As Portas do Paraíso se abrem novamente, e na Eucaristia, nos alimentamos da Árvore da Vida. Somos trazidos de volta para o Éden para arar as terras do nosso coração e nelas cultivar os bons frutos. No Cânon de Santo André, na Oração de São Efraim, nos textos de São João Clímaco, temos um excelente arado.

Mas, o mundo no qual nos movemos em nossa exterioridade está tomado pelo maligno, por isto é terra árida, onde crescem espinhos e sobrevivem animais peçonhentos; um palco de ilusões, descaminhos e lágrimas. Por esta causa, um segundo recurso que a Misericórdia nos fornece são os Santos, os quais não são unicamente intercessores, mas, modelos, guias seguros que nos guiam pelas sendas do caminho da vida, nos livrando dos enganos e seduções do caminho da morte; pois eles, sendo em tudo semelhante a nós, sujeitos às mesmas paixões e fraquezas, manifestaram em si a Vida de Cristo.

Na Epístola que foi lida, São Paulo diz a Timóteo: “Tu, porém, tens seguido a minha doutrina, modo de viver, intenção, fé, longanimidade, amor, paciência...” (2Tm 3:10). E, em outro lugar, se referindo aos Santos, diz:

“Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hebreus 12:1,2). Comemorando esta graça, a Liturgia celebrada durante a semana, entoa:

“Salva-nos, ó Filho de Deus, que És glorificado em Teus Santos, a nós que a Ti cantamos: Aleluia!”

A cada Grande Quaresma devemos sepultar o fariseu que quer viver em nós, e mantê-lo pisoteado pela Cruz de Cristo; pois, via de regra, assim como Caim matou Abel, assim, também, a hipocrisia deseja constantemente assassinar a verdade. E se olharmos direito, não é este o combate que está no subterrâneo de todos os conflitos existentes na Igreja?

Que Deus, por Seu Espírito e misericórdia, pela graça vivificante que há em Cristo, nos faça ouvinte diligentes do conselho apostólico, que assim exorta:

“Conservando a fé, e a boa consciência, a qual alguns, rejeitando, fizeram naufrágio na fé... Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida” (1Tm 1:19; 1:5)

Pe. Mateus (Antonio Eça)

* As citações dos Salmos obedecem às numerações da Bíblia dos LXX (Septuaginta).

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